Trabalho x filhos

(Antes de começar, para que eu não seja apedrejada: o post ilustra as MINHAS idéias e eu não as considero uma regra geral a ser seguida. Cada um sabe o que é melhor para si mesmo e deve fazer aquilo que lhe traz satisfação)

Há bastante tempo eu não falo sobre isso aqui, mas ontem eu recebi um email-despedida de uma amiga minha que está saindo da empresa onde trabalhava há 10 anos.
Essa amiga é uma daquelas pessoas que nunca quis parar de estudar, ela saiu direto da faculdade para uma pós, depois da pró foi transferida para o escritório da empresa na Alemanha, onde ela emendou um mestrado e mais milhões de cursos.
Há alguns anos atrás, ela deu uma desacelerada e criou espaço para aproveitar a vida. Cortou alguns cursos e parou de trabalhar até às 23:00 todos os dias.
Depois de um tempo ela conheceu um super gerente da empresa concorrente e os dois se deram bem desde o início: mesmos objetivos, mesma vontade de chegar láááá em cima, mesmo vício por trabalho e mesma vida corrida.
Eu juro que eu não sei como que eles faziam para conciliar a vida de casal deles com a vida profissional, mas eles deram um jeito e casaram há dois anos.
Quando ela me contou, em julho/2008, que estava grávida eu tive uma mini crise de ansiedade por ela. Meu, ela e o marido estão SEMPRE viajando à negócios, cada um para um canto. Ela NUNCA saiu do escritório em horários normais.
Enquanto eu estava desesperada no telefone perguntando como que ela ia fazer com um bebê, ela me respondia calmamente “faço igual você fez com a Rafa, coloco em uma boa creche”.
Resolvi então me preocupar com a minha própria vida e deixar ela em paz, afinal de contas eu tinha feito isso mesmo – mas com uma diferença, lá em casa era só UMA workaholic! Eu trabalhava até às 20:00, mas Mick buscava Rafetes às 18:00.
O tempo passou, ela percebeu que filho é muito menos previsível do que se gostaria e ELA mudou. Um mês depois do filho dela nascer, o foco dela era ser mãe e não mais a power gerente de uma empresa gigante.
Eu estava com ela no telefone depois que ela deixou o filho na creche pela primeira vez … ela não conseguia falar uma palavra (o sentimento de culpa irracional que toda mãe conhece).
Toda vez que conversávamos ela repetia para mim o que dizia para si mesma: “com o tempo eu me acostumo e volto ao ritmo do trabalho”.
O filho dela tem 9 meses agora e ela não viu a primeira vez que ele engatinhou, não estava com ele a primeira vez que ele andou com apoio e não estava lá quando ele tomou seu primeiro tombo.
Semana passada ela pediu demissão pq não quer perder nada mais da vida do filho.
Eu não a julgo, acho que cada um deve fazer aquilo que acha melhor para a sua vida e para aqueles que estão ao seu lado. O marido dela apoiou a decisão do início ao fim.

Eu, pessoalmente, nunca me senti culpada por ter perdido primeira engatinhada, primeira palavra e etc. Eu sempre me senti feliz por ver a Rafa fazendo alguma coisa nova, e não me importava se já era a vigésima vez que ela fazia tal coisa.
Eu também não me sentia culpada com a creche em SP (e olha que Rafa arrumava escândalo pq não queria ir pra casa!!!). Me senti culpada com a creche daqui mas é pq a creche não era boa.

Hoje em dia eu me sinto culpada nas reuniões de pais quando vejo um monte de mães que não trabalham e estão sempre organizando algo para a escola. Ou podem buscar seus filhos nos horários certos.
Eu me sinto culpada quando eu sei que a Rafa está cansada mas TEM que ir pra escola e para a pós-escola, me esperando até às 18:00.
Me sinto culpada por não ter tempo de ficar batendo papo com a professora para saber do desenvolvimento da Rafa.
Me sinto culpada pq eu só interajo com a Rafa de verdade nos finais de semana (pela manhã nossa vida é super corrida pq temos que nos arrumar e arrumar a mochila dela e quando eu a busco da pós-escola ela dorme dentro do carro e não acorda mais até o outro dia).
E é claro que eu já pensei diversas vezes em pedir demissão e ficar em casa … mas tem uma coisa que me faz ficar no emprego: hoje em dia seria ótimo pra Rafa se eu a pudesse buscar na escola, daqui a alguns anos ela vai ter dever de casa e eu gostaria de poder ajudá-la, mas o que eu faço da minha vida quando ela tiver 10, 11, 12 anos e eu deixar de ser uma “necessidade” na vida dela??!!!
Quando ela não quiser mais que eu a leve pra escola, ou quando não quiser mais ajuda no dever de casa?! Eu quero criar a Rafa para voar sozinha, não quero que ela seja dependente de mim, mas se eu desistir da minha vida agora para me dedicar à vida dela será que eu não vou atrapalhar esse processo querendo mantê-la como meu baby por mais tempo??!!!
E, para mim, abrir mão do trabalho significa abrir mão da minha vida como indivíduo.
Eu não tenho muitos amigos por aqui que não sejam amigos do Mick. Eu não saio para muitos lugares se não for com o Mick.
Tudo o que é separado do Mick (“amigos” só meu, conhecidos só meu, jantares sem Mick, viagens sem Mick, happy hour sem Mick) é fruto das conexões que eu fiz via meu emprego. Se eu abrir mão do meu emprego, meus “amigos” aqui continuarão trabalhando e eu não vou ter muito tempo para encontrá-los. Se eu abrir mão do meu emprego eu não vou mais ser convidada para participar de happy hours (e mesmo que seja, não vou estar mais no loop das conversas); se eu abrir mão do meu emprego eu só vou conhecer pessoas novas através do Mick ou da Rafa (mães de amiguinhos).
Hoje em dia a idéia de um segundo filho não me terroriza mais, então esse assunto voltou à mesa (eu largar meu emprego), mas mesmo que por um lado eu fique seduzida por uma vida sem dramas de escritório e sem chefe, eu ainda enxergo esse passo como uma forma de apagar completamente a minha identidade pessoal e passar a ser só a esposa do Michaël e a mãe da Rafa.

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13 comentários sobre “Trabalho x filhos

  1. Assunto complicado amiga…Eu concordo com vc, sei que deve rolar muitas culpas em relação ao filho, seria ótimo se as duas coisas funcionassem bem e juntas, mas sempre algo vai “ficar”, o lnce é tentar ver o lado bom da coisa…a independência da criança, a sua vida “para além da filha e marido”, sua identidade, as coisas boas que o dinheiro que recebemos pode nos proporcionar etc….
    Amiga como vc mesma disse, é uma opnião de cada um e aho que qual decisão a mulher tomar, é a melhor 🙂

  2. Eu sempre quiz parar de trabalhar quando tivesse filhos mas na verdade não sei como eu vou me sentir realmente quando eu tiver um. Nessa temporada no Brasil, mesmo estudando francês, recebendo visitas ou sempre estando viajando eu me senti muito entediada. E também fiz poucos amigos pela a questão de não estar trabalhando, tudo girou em volta das amizades conquistadas pelo o Barry em seu trabalho. Tenho amigas que deixam seus filhos em creches, algumas não se sentem culpadas e outras sim se sentem… por isso não sei como vai ser comigo. Acho que pelo menos eu irei tentar consciliar as duas coisas pois viver com um salário por aí e ainda mais com crianças nos faria largar de muitos luxos que estamos acostumados. Beijão

  3. Nossa, Fernanda, que coincidência, acabei de ler um livro exatamente sobre essa última parte do seu post. O livro fala da crise das mulheres americanas nos anos 60, que viram suas vidas se resumirem a filhos e marido e quando os filhos estava maiores a vida delas perdia o sentido e elas ficavam MEGA infelizes, inclusive algumas, de tão perdidas, passavam a se drogar, ou viraram alcolatras e umas até suicídio tentaram.

    Eu não sou mãe, então fica fácil falar. Mas espero pensar como você se um dia tiver filhos.

    Um beijo!

  4. Sabe o que acho legal Fernanda? é a gente poder escolher. Chegamos a um ponto que podemos decidir se queremos ficar em casa acompanhando os filhos ou tê-los e continuar investindo no trabalho.
    O fato também de termos maridos que dividem as responsabilidades conosco é fantástica, imagine se você não tivesse o Mick para buscar a Rafa? como seria a sua vida? provavelmente teria que sair cedo do trabalho, ou até mesmo parar de trabalhar que é o meu caso. Se eu estivesse trabalhando também nunca veria meu filho acordado, pois o marido não tem hora para chegar, aliás o mais normal é ele chegar muito depois das 11.
    Ter apoio e poder escolher é o que para mim é a maior conquista.
    bjks

    • E é por isso que eu não julgo ninguém e nem me atrevo a dizer que faria assim ou assado caso estivesse no lugar de alguém.
      Se o Mick não pudesse ir buscar a Rafa cedo, quando estávamos no Brasil, eu não poderia ter começado a trabalhar.
      Se eu não tivesse colocado a minha carreira on hold por mais de um ano (desde o ano passado), tb não conseguiríamos passar tempo nenhum com a Rafa pq os finais de semana seriam tomados por viagens e atividades team building.

  5. Interessantíssimo o asssunto, e por isso mesmo mesmo com a idade que passa mais rápido do que eu gostaria, ainda não tenho coragem de ter filhos. O que vejo muito aí na Bélgica e que me revolta um pouco, é essa mania do pessoal deixar filhos com os avós a torto e a direito: quando criança está doente e não pode ir para a creche, quando as crianças estão de férias e os pais tem que trabalhar, etc, etc. Na família do marido não conseguiam gerir a situação nem com dois filhos, e foram ter três!!! (e todo mundo super career driven!). Os avós vivem cansados mas não sabem dizer não.
    Enfim, talvez isso aconteça porque na Bélgica não tenha infra-estrutura para que ambos os pais trabalhem, não sei…
    Parabéns pelas amizades conquistadas na Bélgica! Sempre achei o pessoal daí muito esquisito, inclusive a maioria dos brasileiros que conheci. Aqui nos States acho saudável (e mais fácil) fazer amizades fora do ambiente do trabalho. Antes que começasse a trabalhar aqui já tinha vários amigos, e maridão nunca faz amizades em lugar nenhum, tudo muito relativo. Tenho amiga que parou de trabalhar quando os filhos precisavam dela, e voltou para o mercado de trabalho quando eles tinham 12, 13 anos. Trabalhou mais uns 6, 7 anos, conheceu um americano, se mudou do Rio para Houston e virou “madame” novamente. Todas as portas estão abertas, ela aproveita muito a vida viajando (brasil e europa), mas pode voltar a trabalhar tb. Outra conhecida virou mãe em tempo integral e é uma chata, não temos mais assunto em comum.
    Como a Cristiane disse, escolher é uma conquista mas também um privilégio que nem todas as mulheres tem!
    Beijocas

    • Há alguns meses eu decidi que iria parar de trabalhar SE engravidasse denovo. Dias depois eu encontrei uma amiga minha que tinha parado de trabalhar para tomar conta do marido e da casa (no kids).
      Meu, ela ficou 30 min. reclamando do vizinho X que não mandou um cartão agradecendo a visita dela ao bebê recém nascido deles, mais 30 min. reclamando dos produtos de limpeza que não limpam bem e mais 1h reclamando da antipatia belga.
      Aí eu lembrei de tantas mães de amigos meu que acabam que tentam viver a vida dos filhos (interferindo em tudo e dando palpite em absolutamente tudo) para encherem seu próprio dia a dia.
      Esses são casos extremos mas, estando fora do país, isso me assustou MUITO perceber como que a vida de algumas pessoas diminuem e perdem o sentido.
      Cada caso é um caso e cada um sabe de sua própria realidade e necessidade, mas me apavora saber que isso poderia acontecer comigo.

  6. Interessantíssimo o asssunto, e por isso mesmo, apesar da idade que passa mais rápido do que eu gostaria, ainda não tenho coragem de ter filhos. O que vejo muito aí na Bélgica e que me revolta um pouco, é essa mania do pessoal deixar filhos com os avós a torto e a direito: quando criança está doente e não pode ir para a creche, quando as crianças estão de férias e os pais tem que trabalhar, etc, etc. Na família do marido não conseguiam gerir a situação nem com dois filhos, e foram ter três!!! (e todo mundo super career driven!). Os avós vivem cansados mas não sabem dizer não.
    Enfim, talvez isso aconteça porque na Bélgica não tenha infra-estrutura para que ambos os pais trabalhem, não sei…
    Parabéns pelas amizades conquistadas na Bélgica! Sempre achei o pessoal daí muito esquisito, inclusive a maioria dos brasileiros que conheci. Aqui nos States acho saudável (e mais fácil) fazer amizades fora do ambiente do trabalho. Antes que começasse a trabalhar aqui já tinha vários amigos, e maridão nunca faz amizades em lugar nenhum, tudo muito relativo. Tenho amiga que parou de trabalhar quando os filhos precisavam dela, e voltou para o mercado de trabalho quando eles tinham 12, 13 anos. Trabalhou mais uns 6, 7 anos, conheceu um americano, se mudou do Rio para Houston e virou “madame” novamente. Todas as portas estão abertas, ela aproveita muito a vida viajando (brasil e europa), mas pode voltar a trabalhar tb. Outra conhecida virou mãe em tempo integral e é uma chata, não temos mais assunto em comum.
    Como a Cristiane disse, escolher é uma conquista mas também um privilégio que nem todas as mulheres tem!
    Beijocas

  7. Fee, serah que vc leu a minha mente e o que passa dentro de mim??? Acho que sim 🙂

    Concordo com o que vc disse, mas eu sinto que minhas prioridades estao mudando e muito. Tenho varias coisas na cabeca, tbem adoro sair para trabalhar, ter uma funcao que nao seja ficar em casa, mas tbem sinto muita falta de ficar com a Victoria e passsar tempo com ela… lembra que 1 ano atras eu subia pelas paredes e soh queria sair para trabalhar ha, ha, ha. Como mulher eh um ser complicado, mas nao eh soh mulher nao, o Paul estah com a Victoria em casa e ele sente a mesma coisa que eu, suas prioridades tbem mudaram totalmente.

    Se eu quisesse realmente ficar realizada no trabalho estaria trabalhando em “operations” 20hrs por dia, correndo e resolvendo pepino de hospede, vai entender, mas hoje em dia eles teriam que me pagar muita grana para eu fazer isso, estou bem com o meu empreguinho de 9-5:30 com alguns dias trabalhando um pouco mais, se for trabalhar 20hrs por dia que seja para mim e nao para outra pessoa.

    Eh fogo neh? Realmente nao achei que ter a Victoria fosse mudar o jeito que eu pensava sobre isso, para mim, antes trabalho era prioridade, mas… mudei 🙂

    Pense em vc, no que vai te deixar feliz, como vc disse, a Rafa vai crescer, se mudar e depois?

    Bjao… estou voltando… devagar…

  8. Sabe o que eu acho quando somos mais novas as coisas são mais fáceis, não pensamos tanto…trabalhei desde os 13 anos…e parei quando me mudei pra ca, quero dizer trabalho pro meu marido em casa…no escritório…mas aí é que está..é em casa.E quero mudar isso em 2010.
    Engravidar de um segundo está fora dos meus planos, acho tão mais fácil só a Louise, pra viajar, no quesito financeiro…quanto em deixar com avós…aqui tem um subsídio que é pago para os avós.Mas não entendo mesmo esse povo tendo 3 filhos quando nem conseguem cuidar de dois, vejo muito por aqui…e na rua as mães alucinadas com os tres (tudo escadinha…nem bem pariu de um já tá grávida do outro).
    Pense bem…pense na sua liberdade e na do seu marido.Bjs

  9. Ola
    Esse assunto é mesmo muito polemico, e nao pude deixar de comentar. Eu ainda nao tenho filhos, mas estamos planejando para te-los. E confesso que fico pensando na minha carreira, tanto estudo, estou crescendo na carreira. Mas a natureza é ingrata, tem que acelerar a maternidade.
    Anyway, converso sempre com o maridao para esclarecer o que devera ser feito, as mudanças, as prioridades, a educaçao, etc. Mas no final sei que vai super dificil, para nos mulheres é muito complicado, mas a gente tem que tomar uma decisao e seguir em frente, mas o legal como alguem mencionou nos comentarios e que temos opçao, e isso é muito bom. Podemos mudar de ideia. E outra coisa que queria dizer é que conheço varias mulheres no escritorios que trabalham em cargos de importancia (uma é advogada e a outra Project Manager) e voltaram a trabalhar depois que a criança começou a estudar, e fazem 3 e a outra 4 dias por semana das 9.30 as 4.30 e assim tem tempo para deixar e pegar as crianças na escola. E vendo essas mulheres batalhadoras fazendo isso eu me motivei a encarar a maternidade e fazer os dois. Eu acho que tem que ser assim, um pouco de cada ate a gente fazer a escolha que a gente acha que é a melhor.
    Bjs
    Nanci
    xxx

  10. Eu parei de trabalhar quando tive meus filhos ( quase 6 a e 3 1/2 a) e curto de montao a minha vida com eles, tem sido anos maravilhosos!! Mas tenho consciencia, que como vc falou, havera um ponto que eles nao precisam/querem que a gente fica em funcao deles mais, por isso qdo o meu mais novo ir a escola em Setembro do ano que vem, voltarei a faculdade.
    Eu acho importante a mulher ter uma profissao, nao apenas para ter a vida propria, mas a gente nunca sabe do futuro pois marido morre e divorcios acontecem (bate na madeira!!)
    O curso que farei sera part time respeitando os horarios e ferias escolares o que achei bem legal!

    bjos x

  11. meeeu, ameii seu blog, eu penso exatamente como vc, e o seu jeito de se expressar e igualmente ao meu, menina! lendo td isso parece q foi eu msm qm escreveu…tenho um filho de um ano, chama Raffael, vai pro bercario desde os 6 meses, e se nao fosse isso, eu estaria acabada…eu penso q qd ele crescer, podera ate agradecer ou nao por eu largar td por ele e tals, mas com certeza ele nao vai largar a vida dele pra ficar com a velha aki…entao…deixa-me livre…rs bjs

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